Entrevista com Hiroko Oyamada
ENTREVISTAS
Cacau Ideguchi
8/18/20266 min read


Crédito da foto: editora Shinchosha
Exatamente um ano atrás, eu e os participantes do Clube do Livro JAPONI fizemos a leitura de "A Fábrica", da autora japonesa Hiroko Oyamada. A atividade foi um sucesso estrondoso, o livro, com sua estranheza inicial superada rapidamente pelos membros mais novos e abraçada afetuosa e entusiaticamente pelos membros que frequentam o Clube há mais tempo. Estouramos o tempo de conversa, passando das duas horas previstas; o papo se alargou para além da literatra, falando sobre capital, juventude, simbolismos, repertórios múltiplos, todos nos empolgamos com a autora, contentes pelo primeiro livro dele ser tão bom. Fiz meu vídeo usual sobre a leitura, que alguns meses depois foi visto pelo própria Hiroko-san; partindo dessa gentil interação, me muni dos meus nunca esquecidos dotes jornalíticos e aproveitei nossa segunda leitura, agora presencial (que deveria ser este mês de agosto, mas tivemos que passar para setembro!) de "A Fábrica", para pedir uma entrevista para a autora. E ela gentilmente concedeu uma exclusiva para o JAPONI, respondendo alguns perguntas do nosso Clube do Livro que transcrevo abaixo.
Vale ressaltar que a entrevista foi realizada em japonês para que a autora pudesse se expressar melhor, já que ela não fala inglês, e para tanto foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial para mediar nossa interação. Para os falantes de japonês deixo, também, a entrevista na íntegra em nihongo. Não custa, lembrar, claro, que a entrevista pode ser citada em trabalhos futuuros, desde que dados os devidos créditos e com inclusão de link para esta página.
1.
CACAU IDEGUCHI: Em "A Fábrica", o absurdo se infiltra de forma tão gradual que, quando o leitor percebe, já o aceitou como algo normal. Essa "estranheza" é uma ferramenta para falar sobre o trabalho contemporâneo, ou foi escrita como uma lente que reflete algo mais profundo sobre a existência humana?
HIROKO OYAMADA → Como você apontou na pergunta, acredito que seja ao mesmo tempo uma ferramenta para falar sobre o trabalho contemporâneo e, também, uma lente que revela algo sobre a existência humana que vai além do trabalho.
Quando eu tinha vinte e poucos anos, na transição de estudante para trabalhadora, senti que o trabalho que eu realizava todos os dias no escritório continha diversas estranhezas e absurdos.
Havia costumes que não estavam diretamente ligados ao lucro, mas que eram considerados obrigatórios, consumindo meu tempo e minha atenção — e, como resultado, eu precisava fazer horas extras para dar conta do resto. Havia também medidas de segurança que já haviam se tornado meras formalidades, incapazes de prevenir qualquer problema caso algo acontecesse. E, simplesmente, vi pessoas serem lançadas de repente ao trabalho em estado de imaturidade e ignorância, adoecendo física e mentalmente.
Os absurdos e as estranhezas que escrevi em "A Fábrica" são exatamente aquilo que eu sentia enquanto trabalhava.
Essas diversas estranhezas e absurdos me deixavam ansiosa e, como resultado, eu não conseguia permanecer por muito tempo em um único emprego, vagando por vários tipos de trabalho (o que também me deixava financeiramente instável).
No entanto, quando transformei essa ansiedade em ficção e finalmente terminei de escrever "A Fábrica", senti que o absurdo e a estranheza não são apenas negativos — talvez eles também constituam a inexplicabilidade e a riqueza da existência humana.
2.
CI:Em "A Fábrica", vespas, pássaros, criaturas no rio e outros animais aparecem em cenas importantes. Eles formam um ecossistema paralelo ao mundo da fábrica, quase como comentaristas silenciosos. Na sua literatura, qual é o papel desses "seres não humanos"?
HO: → Em primeiro lugar, eu amo animais e criaturas vivas. Como nasci e cresci no interior, pequenos insetos, sapos e lagartixas eram meus amigos (embora eu duvide que eles me considerassem amiga deles. Matei incontáveis insetos, e vários sapos também foram vítimas da minha curiosidade e do meu descuido).
Por isso, escrever sobre animais é um desejo muito instintivo para mim. Escrever sobre animais, plantas e outros seres me dá muito prazer, e sinto que, quando essas descrições fluem bem, a obra como um todo melhora.
Certa vez, trabalhei no subsolo de uma empresa que possuía uma grande fábrica, e vi uma mulher carregando peças de máquinas.
Dos ombros daquela mulher pequena, uma parte preta de uma máquina se projetava para fora. Por um instante, pareceu que ela estava segurando um grande pássaro negro. Logo percebi que era um engano, mas aquela imagem ficou gravada em mim com tanta força que decidi, antes de tudo, escrever sobre muitos pássaros pretos habitando a fábrica.
Comecei a escrever "A Fábrica" para expurgar a ansiedade e a inquietação que sentia quando trabalhava na fábrica, mas aquilo não passava de um amontoado de textos curtos, como anotações desconexas, e eu não conseguia dar forma a eles como uma obra única.
Foi então que pensei em inserir relatórios sobre criaturas que simbolizassem a fábrica, como uma forma de explicar aquele universo para mim mesma e para o leitor — e foi assim que consegui terminar o livro.
Ao reler "A Fábrica" hoje, sinto que as descrições e explicações dos animais talvez estejam escritas de forma explícita demais como símbolos dos seres humanos dentro da fábrica. Ainda assim, acredito que foi escrevendo aqueles relatórios sobre eles que minhas anotações finalmente conseguiram se completar como romance.
3.
CI: No Brasil, estamos relendo "A Fábrica" em um clube do livro em parceria com o Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa). Muitos leitores se identificam profundamente com a sensação de estar perdidos dentro de uma estrutura incompreensível — algo que ressoa com a experiência brasileira de burocracia e trabalho precário. Que mensagem você daria aos leitores que encontram neste livro um espelho de suas próprias vidas profissionais?
HO: → Eu, que vivo no Japão, numa cidade do interior de Hiroshima, numa área ainda mais rural, escrevi esta obra para expurgar a ansiedade do trabalho cotidiano. Nunca imaginei, quando comecei a escrever, que ela ressoaria com os sentimentos de leitores de outro país, em outra língua, sobre seus próprios sistemas sociais e suas próprias relações com o trabalho. Isso me deixa muito feliz.
Acima de tudo, sou grata às pessoas que traduziram e publicaram minha obra e, naturalmente, aos leitores brasileiros que a leram.
O trabalho não deveria ser tudo na vida, mas sinto, muitas vezes, que as rédeas da vida estão nas mãos do trabalho.
O sistema social atual — o capitalismo que domina muitos países — parece nos enviar a mensagem de que devemos existir apenas como seres capazes de trabalhar e consumir.
Mas, pelo menos por enquanto, ainda não nos tornamos pássaros sem palavras, nem lagartixas que só pensam em pôr ovos em lugares de temperatura adequada.
Assim como as palavras que escrevi, transbordando para fora do trabalho, de um lugar que conheço apenas de forma muito limitada, conseguiram se conectar a um país distante, acredito que nós ainda somos capazes de emitir palavras.
4.
CI: "A Fábrica" é um romance de estreia e, ainda assim, já chega com uma voz extremamente singular e uma visão de mundo plenamente formada. Que escritores ou tradições literárias a influenciaram no início? E houve alguma obra específica que lhe deu coragem para escrever o tipo de ficção que queria escrever?
HO: → Quando eu estava tentando escrever "A Fábrica", encontrei por acaso "A Casa Verde" (La Casa Verde), de Mario Vargas Llosa, em um sebo, e comecei a lê-lo no trem a caminho do trabalho.
Fiquei fascinada por aquele estilo em que o tempo se desordena e as cenas se alternam, e pensei que gostaria de escrever daquela forma também.
Olhando agora, talvez seja difícil dizer que minha tentativa de imitar "A Casa Verde" tenha sido bem-sucedida, mas não há dúvida de que foi uma obra que me deu a paixão necessária para escrever.
Além disso, gosto muito de obras de Franz Kafka, Lewis Carroll, Natsume Soseki, Machida Ko e Tsumura Kikuko — e acredito que fui influenciada por todos eles.
